segunda-feira, 22 de agosto de 2011

15.08.2011 - Marie Celeste


“Terminámos ontem á noite o carregamento, e devemos partir 3ª de manhã, se não já esta noite, permitindo Nosso Senhor. A embarcação está em perfeito estado e, embora nunca nela tenha viajado e nada possa assegurar, espero que tenhamos uma boa viagem. Dentro de aproximadamente 20 dias, deverá poder escrever-nos para Genoa.

Espero estar consigo na Primavera, com muito amor.

Afectivamente seu

Benj”



Benjamin S. Briggs, Capitão, estado-unidense, 37 anos.
Sua esposa Sarah Elizabeth Briggs, estado-unidense, 31 anos.
Sua filha, Sophia Matilda Briggs, estado-unidense, 2 anos.
Albert G. Richardson, Oficial, estado-unidense, 28 anos.
Andrew Gilling, segundo oficial, dinamarquês, 25 anos.
Edward Wm Head, comissário de bordo e cozinheiro, estado-unidense, 23 anos.
Volkert Lorenson, marinheiro, alemão, 23 anos.
Arian Martens, marinheiro, alemão, 23 anos.
Boy Lorenson, marinheiro, alemão, 23 anos.
Gottlieb Gondeschall, marinheiro, alemão, 23 anos.

Na madrugada do dia 5 de Novembro de 1872, partia de Nova Iorque o navio Mary Celeste.  Bergantim de 282 toneladas, construído 11 anos antes na Nova Escócia, antes conhecido por Amazon, passara já por muitas mãos antes de chegar às do Capitão Briggs e seus sócios. No porão, 1701 barris de alcoól puro tinham como destino o porto de Genoa, Itália. O tempo estava calmo. Jovem, mas hábil e de bom currículo, a tripulação dirigia a embarcação, enquanto debaixo da madeira do convés, Sarah deitava a pequena Sophie. Possivelmente sopraria uma fria brisa de um bonito dia de Inverno, parcas nuvens, o barulho da metrópole a ser deixado para trás. À frente, só o longínquo horizonte, a ténue linha que se funde o azul do céu com o azul do mar. O barulho do casco a cortar a água inspirava tranquilidade.

Sete dias depois, partia Dei Gratia, navio mercante canadiano comandado pelo Capitão David Reed Morehouse, íntimo da família Briggs. A sua rota coincidia com a do Mary Celeste, mas problemas com as mercadorias obrigaram a tripulação a partir com uma semana de atraso. As condições mantinham-se, calmas, e não tinha sido registado nenhum percalço meteorológico na semana que passara. Nesse sentido os ventos continuaram a soprar, e pouco mais que vinte dias depois, tinham já atravessado o Atlântico. Por esta altura, já o Capitão Briggs estaria em Genoa com a família, aproveitando uns merecidos dias de descanso. Estavam a 600 milhas da costa portuguesa, em direcção ao Estreito de Gibraltar, na tranquila tarde do dia 4 de Dezembro, quando o timoneiro John Johnson avista um navio, avisando a restante tripulação. A embarcação vizinha navegava, aparentemente sem qualquer anomalia, com o mesmo rumo do Dei Gratia. John Johnson, atento, perscrutava-o ao longe. A bordo, não se avistava uma única sombra humana. Aproximando-se, curiosos com o estranho facto, puderam ler a inscrição lateral em que, com letras grandes, se lia Mary Celeste.

Oliver Deveau, oficial chefe do Dei Gratia, entrou a bordo. Exceptuando o convés molhado, a embarcação estava em perfeito estado, pronta para navegar. A mercadoria permanecia intacta, os mantimentos intocados, e, sem contar com o diário de bordo, nenhum outro papel ou documento lá se encontrava. As escotilhas estavam abertas, e o bote salva-vidas ausente. Dos dez tripulantes do Mary Celeste, não se identificava um sinal.

Em Gibraltar o navio foi submetido a profunda análise pela polícia. Para adensar o mistério, 9 ds 1701 barris, embora intactos, estavam completamente vazios. Não se verificava um sinal de luta, um testemunho, uma marca identificadora. Dez seres desvaneceram-se, e nada o podia explicar.

Um caso de pirataria estava desde logo excluído, tento pelo patrulhamento levado a cabo pelo império britânico em Gibraltar, como pela ausência de sinais de violência e por nada ter sido pilhado. Um improvável assassinato de Briggs e sua tripulação pelo Dei Gratia também se torna impossível, devido ao atraso que este levava. Nenhum tsunami ou maremoto foi notado pela população açoriana, nenhuma tempestade ou remoinho foi registado. O álcool dos 9 barris vazios pode ter evaporado e, por causa desconhecida, inflamado, levando-os a abandonar o navio, mas nunca tal situação se identificou, e verificar-se-iam necessariamente tanto resíduos gasosos de etanol como mais barris vazios.

Dos dez, nunca nenhum deles voltou a ser visto.

Versões da história, como a narrada por Sir Arthur Conan Doyle, afirmam que Deveau, a bordo, encontrou uma mesa posta com chá ainda quente e, a um canto, o cachimbo de Briggs fumegava.

O Mary Celeste continou como navio mercante até Janeiro de 1885. Numa tentativa de fraude a uma seguradora, o então capitão incendiou o navio ao largo do Haiti. As chamas tomaram o navio. Contudo, depois de se apagarem, revelaram o navio sem qualquer dano. Do pouco que ardeu, conta-se o diário de bordo de Briggs. Hoje, o Mary Celeste descansa sob um manto de corais, em ruína. No interior da sua madeira, está encarcerado o mistério eterno das dez vidas nunca encontradas.

Alinhamento:

1. Nurse with Wound - Salt Marie Celeste

Podcast

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

08.08.2011 - George Percy Aldridge Granger



Nascido a 8 de Julho de 1882 num subúrbio do Norte de Melbourne, Austrália, filho de arquitecto emigrante britânico e da filha de um hoteleiro em Adelaide. Com uma educação caseira e extremamente conservadora, principalmente por parte da mãe, cedo se revelou notável pianista, tendo iniciado aulas com o alemão Louis Pabst aos 10 anos. A sua primeira composição “A Birthday Gift to Mother”, data de 1893, tinha Percy 11 anos. Um ano depois, tocava a solo Bach, Beethoven e Schumann no Melbourne Masonic Hall, numa performance bastante aclamada pela crítica local. Aos 13 anos ingressava no Conservatório Hoch em Frankfurt, para onde viajou com a mãe, separada já do revelado promíscuo marido.

A chegada à Europa foi marcante para Percy, catapultando-o para as emergentes esferas artísticas do centro europeu. Entre concertos de piano de Tchaikovsky, graças da crítica e tertúlias com alunos britânicos mais velhos, o jovem artista começa a formar o seu próprio perfil como compositor. As novas influências impulsionavam-no no sentido contrário aos dos conservadores modelos europeus de Mozart, Chopin e Wagner, introduzindo-se nas novas tendências revolucionárias. Por esta altura, começou também um projecto de musicar Rudyard Kypling, cujo lirismo e musicalidade tanto o inspirava como influenciava. Após certificar-se que alcançava uma posição confortável como pianista profissional, de modo a poder sustentar-se a si e à mãe, acaba por fixar-se em Inglaterra. A cultura do norte do continente sempre fascinara o ausrtaliano, que inclusivamente expressara opiniões e comentários anti-semitistas e raciais. Contudo, as ligações que Percy Grainger estabeleceu com a cultura popular mundial revelaram-se extraordinárias.

Com a invenção do fonógrafo em 1877 pelo americano Thomas Edison, a visão do artista em relação à música foi completamente alterada. O som não se limitava jamais a notas expressas em pauta, os compositores podiam experimentar sem recear perder os resultados e, não menos importante, permitiu registar música como nunca antes fora feito, com toda a introdução do sentimento, da genuinidade e dos nuances vocais e instrumentais. Já em terrenos britânicos, Percy Grainger inicia uma demanda que tantos outros perpetuaram, sendo um pioneiro na recolha da música tradicional. No verão de 1906, com os cilindros de Edison às costas, e uma equipa técnica, calcorreou as costas da Grã Bretanha, cativando as populações com a sua pouco ortodoxa e peculiar personalidade. Em casa, ouviu as horas de gravação vezes sem conta, a tempos de rotação diferentes, apreendendo todos os pormenores, e absorvendo tudo o que estes iletrados pescadores, marinheiros, homens e mulheres, com a sua secular tradição oral, apaixonadamente cantavam e tocavam.

As notas intermédias - a flexão do tom, o enrugamento da textura do timbre, a aceleração e desaceleração das pulsações preencheram a mente compositora de Grainger, aplicando essa liberdade nas suas partituras. No Verão de 1908, numa passagem por um pequeno ajuntamento costeiro em Devon, ouviu um marinheiro a entoar “Shallow Brown”. A partir dela, construiu uma canção sinfónica para soprano, coro, e uma invulgar orquestra incluíndo guitarras, ukeleles e bandolins. “Trémulos de cordas agitam-se como rebentações, instrumentos de sopro agudos gritam como gaivotas, instrumentos de som mais graves fazem lembrar criaturas terríveis das profundezas. A voz navega lá em cima, fazendo explodir lá fora as melodias e compasso para levar a emoção até casa: “Shallow Brown, u’re going to leave me”

Nos anos que se seguiram, Grainger prosseguiu por costas irlandesas e escandinavas, começando também a compor originais inspirados, mas sem origem, em temas populares recolhidos, num modelo que rejeitava as imposições clássicas europeias de formatação musical. Grainger não compunha sonatas, sinfonias ou ópera, produzia música. Acabaria também por, com Shoenberg, Ives e Debussy, se assumir como percussor da atonalidade, e da libertação dos acordes e harmonias tão limitadores. Na Noruega, estabeleceu também fortes ligações com Edvard Grieg, com quem viria a colaborar e compor. Em Inglaterra colaborou igualmente com Frederick Delius, a quem inclusivamente sugeriu a interpretação do tema popular por ele recolhido, Brigg Fair.

Embora louvasse as suas tendências norte-europeias, arianas e algo extremistas, Grainger orgulhava-se da sua origem australiana, e numa série de viagens que realizou à terra natal, procedeu à recolha de temas Maoris, e das ilhas Indonésias, de Salomão, de Samoa e Faroé. A partir dela, foram assinaláveis as influências rítmicas e harmónicas assumidas nos anos que se seguiram.

O trabalho de Grainger como investigador etnográfico teve repercussões de enorme dimensão, marcando o pensamento e o modo de compor de toda uma geração que lhe seguiu, sendo o trabalho de Bela Bartòk, com as suas recolhas históricas do leste europeu, o mais notável, e, como não podia deixar de ser referenciado, o trabalho levado a cabo pelo córsego Michel Giacometti em terrenos nacionais.

Percy Grainger faleceu a 20 de Fevereiro de 1961, em território norte-americano, onde residia desde o despertar da primeira Grande Guerra. Humilde e dedicado à mãe, morreu pianista, recusando todos os convites para assumir orquestras. Atrás de si, deixou um museu dedicado ao seu trabalho em Melbourne, uma colecção de instrumentos e máquinas musicais inovadores direccionados para o que ele apelidava de “música livre”, e um gigantesco legado como instrumentista, compositor, e etnomusicólogo.


Alinhamento:

1.      Lincolnshire Posy:
. Lisbon
. Horkstown Grange
. Rufford Park Poachers
. The British Young Sailor
. Lord Melbourne
. The Lost Lady Found
2.      Sailor’s Song
3.      Colonial Song
4.      Shenandoah
5.      Shallow Brown
6.      Brigg Fair (arranjo de Frederick Delius)
7.      Let’s Dance Gay In Green Meadow
8.      Father and Daughter
9.      Ramble On Love
10.  Molly On the Shore

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

01.08.2011 - O Monstrengo


De criaturas puramente mitológicas, a seres cuja existência é hoje aceite, desde sempre que o abismo submerso olha para os que o navegam, dando vida e uma certa natureza horrífica às vagas que destruíam os barcos, aos ventos dilacerantes ou simplesmente ao medo, à solidão, ao desespero.

Nos mares gregos da antiguidade, descrevia-se a fúria de Kharybdis, uma náiade transformada num gigantesco remoinho, a quem nunca ninguém escapava. Segundo a lenda, Kharybdis era uma bela filha de Posydon, Deus dos Mares. Sendo-lhe extremamente leal na sua Guerra contra Zeus, ajudava-o a destruir tudo à sua passagem, comandando as vagas depois das tempestades. O seu sucesso bélico terá sido tanto, que Zeus, irritado, a transformou num horrendo monstro, enterrado nas profundezas, só boca e barbatanas que, rodando, causava os falados remoinhos. Kharybdis estaria colocada junto à margem de um estreito canal, estando Scylla, outro monstro, na contrária. Scylla representava uma feroz serpente de seis cabeças que, a cada navio que a encontrava, comia seis homens, um por cabeça. Os marinheiros, passando, ao evitarem um mal, teriam de aproximar-se de outro, suscitando diversas interpretações e referências na literatura épica.

Também a Hydra, mitificada na segunda tarefa de Herácles, se fazia passar por uma serpente de inúmeras cabeças, e se cada uma fosse cortada, duas novas dela nasceriam. O herói acabaria por derrotá-la ajudado pelo sobrinho, que o aconselhou a queimar o pescoço de cada cabeça cortada.

Num mar repleto de histórias fantásticas e navegadores divinizados, no século V surgem relatos do Aspidochelone, gigantesca tartaruga que, emergindo, iludia os marinheiros parecendo uma ilha de areia branca. Felizes, e fatigados pela jornada, atracavam e preparavam-se para cozinhar. Contudo, ao acender a fogueira, despertavam a criatura, que subitamente imergia, levando consigo barco e marinheiros para as profundezas.

Nos mares do Norte, que banhavam a costa escandinava, reinavam criaturas de outras formas e mistificações. Iku-Turso, por exemplo, chegou mesmo a representar a fonte de todos os males e doenças, apresentando-se com vários epítetos: partaleinen, o de barbas, Tuonen Harka, o touro de Tuoni, tuhatpaa, o das mil cabeças, e tuhatsarvi, o dos mil chifres.
Nas mesmas águas viva Jormungandr, uma enorme serpente marinha, eterna inimiga de Thor, o Deus trovão. Thor acabaria por derrotá-la numa terrível batalha, em que o herói a mata depois de ela emergir das águas e envenenar o céu, ditando assim o seu próprio fim. Após matá-la, o Deus dá nove passos e acaba por cair morto.
Algures entre a Noruega e a Islândia nadava ainda o Kraken, mítico polvo de dimensões colossais que se alimentava de baleias, navios, homens, e tudo o resto com que se deparasse. As suas histórias prolongaram-se durante séculos, sendo inclusivamente inserido em enciclopédias, e hoje chega mesmo a admitir-se a existência de tal molusco, embora sem as suas características alimentares exageradas.
Por costas dinamarquesas e polacas contava-se também a fantasmagórica presença do monge marítimo, uma criatura metade peixe metade monge, com horrenda cabeça, inconfundível pela sua redonda careca, que assombrava os marinheiros. Atribui-se hoje a sua aparição a lulas gigantes, tubarões-anjo, ou focas.

Umibozu, por sua vez, era um enorme espírito que reinava nos mares do Japão. Surgia aos marinheiros como uma sombra preta que emergia em toda a sua dimensão, e rodeava-os de espíritos que acreditava-se pertencerem a monges e sacerdotes afogados. Se irados, o único modo de evitar a morte e a destruição era oferecendo-lhes um barril que, cheio de água do mar, os pudesse afogar, o que implicava que esta não tivesse fundo.
Ao longo dos anos, com o crescente domínio sobre o mar, o aumento das vias de comunicação, e o conhecimento geográfico do planeta, a maioria destas criaturas foi desmistificada. Carcaças de supostos sáurios marítimos foram atribuídas a tubarões-frade, as terríveis serpentes gigantes são afinal peixes-remo, as lulas gigantes são cada vez mais documentadas, e a baleia é hoje sabida um animal predominantemente pacífico, despistando todos os exageros e temores que este enorme animal provocava. Contudo, há ainda casos por explicar.

Em Falmouth Bay, Cornualha, foi avistado pela primeira vez em 1906 o Morgawr, besta parecida com uma serpente marinha, apontada com formas de Plesiossauro, dinossauro extinto há milhares de anos. Não muito longe, encontra-se o semelhante caso de Nessie, ou Monstro do Lago Ness, documentado em 1933 e popularizado desde então. Nos mesmos moldes, mas com depoimentos não tão dúbios, existe Caddy, nome adoptado para Cadborosaurus willsi. Os relatos de avistamentos ascendiam aos 300, arrastando-se por 200 anos, na Costa Oeste dos Estados Unidos e Canadá, chegando a obter-se duas carcaças, uma em 1937 e outra em 1947, na ilha de Vancouver. Foi avistada ainda uma criatura semelhante mas de menores dimensões, a que os populares chamaram Amy, supondo-a como fêmea do réptil original, e um corpo em desenvolvimento, capturado em 1968 por pescadores, que se atribuiu a uma cria da espécie.

Ainda pelo continente americano, mas na Costa Este, após vários testemunhos no Mar das Caraíbas, deu à costa da Florida, na praia de Santo Agostinho, um corpo em decomposição que se julga pertencer a uma espécie de polvos gigantes naturais dos abismos de Andros, uma ilha nas Bahamas. No entanto, embora prevaleça a crença na sua existência, uma vertente científica considera-a apenas um resto de Cachalote.

O mar encerra ainda hoje mistérios infindáveis, permanecendo amplamente desconhecido pela comunidade científica. Quem sabe o que, nas profundezas, os abismos escondem?

Alinhamento:
1. Krzysztof Penderecki - The Awakening of Jacob
2. Gerard Grisey - Transitoires pour Grand Orchestre
3. Tristan Murail - Territoires de l'Oubli
4. György Ligeti - Lontano



Podcast

25.07.2011 - Mü


   “O Jardim do Éden não se encontrava na Ásia, mas num continente actualmente imerso no Oceano Pacífico. A criação segundo a Bíblia, com os seus épicos sete dias e sete noites, teve a sua origem não nos povos do Nilo ou do Vale de Eufrates, mas neste agora submerso continente, Mu - o Berço da Humanidade.”

   “No início, o Universo era apenas alma ou espírito. Tudo era ausência de vida - calmo, taciturno, silencioso. A imensidão do espaço era vazio e escuridão. Apenas o Espírito Supremo, o grande Poder Auto-existente, o Criador, a Serpente das Sete Cabeças, deslizava por entre o negro abismo.
“Surgiu-Lhe o desejo de criar mundos, e Ele criou mundos; surgiu-Lhe o desejo de criar a Terra, com seres vivos sobre ela, e Ele criou a Terra e tudo nela.
   “Os sete intelectos superlativos da Serpente das Sete Cabeças deram sete ordens.
   A primeira ordem dizia:
   “Que os gases disformes e espalhados pelo espaço sejam reunidos, e que a partir deles se forme a Terra’.        
   Os gases agregaram-se então numa tempestuosa massa.”
   A segunda ordem dizia:
   “Que os gases solidifiquem e formem a Terra’. Então os gases solidificaram; uma parte exterior, a partir do qual se formaria água e atmosfera, e outra envolvida no novo mundo. A escuridão permanecia e tudo era silêncio, pois ainda nem água nem atmosfera se tinham formado.”
   A terceira ordem dizia:
   “Que os gases exteriores se separem e que deles se formem a atmosfera e as águas” E os gases foram separados; uma parte formou as águas, e as águas estabeleceram-se na Terra e cobriram toda a sua superfície, imergindo-a completamente. Os gases que não formaram água formaram a atmosfera, e:
   “A luz estava contida na atmosfera.
   “E os raios de sol uniram-se aos raios de calor da atmosfera, e deram-lhe energia. Assim houve calor na superfície da Terra.”
   A quarta ordem dizia:
   “Que os gases dentro da Terra se levantem acima da superfície das águas’. E os fogos do submundo elevaram a terra em que as águas assentavam até aparecer, acima da sua superfície, terra seca.”
   A quinta ordem dizia:
   “Que a vida se forme nas águas”. E os raios de Sol uniram-se aos raios da Terra na lama das águas, e formaram-se ovos cósmicos das partículas de lama. A partir destes, nasceu a vida como ordenado.”
   A sexta ordem dizia:
   “Que a vida tome a terra”. E os raios de Sol uniram-se aos raios da Terra na poeira do solo, e daí se formaram novos ovos cósmicos. A partir destes, nasceu a vida como ordenado.”
   E por fim, quando tudo isto estava feito, o sétimo intelecto ordenou:
   “Que façamos o Homem segundo nós próprios, e que nos permitamos dotá-lo do Poder de dominar esta Terra.” Assim, Narayana, o Intelecto de Sete Cabeças, o Criador de todas as coisas no Universo, criou o Homem, colocando-o num corpo vivo e imperecível espírito, e o Homem tornou-se como Narayana em poder intelectual.
   A criação estava completa.”

   Foi Mu que este primeiro Homem de Narayana pisou. Um enorme continente no meio do Pacífico. Nele, planícies infindáveis eram pinceladas de flores-de-lis, verdejantes relvados e luxuriante vegetação tropical, por onde refrescantes riachos encontravam o seu caminho até ao mar. Os férteis vales eram povoados por borboletas e colibris, e, junto à costa, coqueiros e palmeiras coroavam as calmas praias douradas. Foi em Mu que este recém-nascido se estabeleceu, e formou uma sociedade sem igual, com cerca de 64 milhões de indivíduos de pele branca e cabelo louro, tal qual tinham sido concebidos. Tudo era perfeito em Mu, reinando a bondade e a sensatez transmitidas pelo sétimo intelecto na criação.

   Subitamente, de um dia para o outro, a Terra é dominada por um enorme cataclismo. Fogos devoram a superfície, terrivelmente abalada pelos ininterruptos sismos. Num curto espaço de tempo, toda a humanidade se via reduzida a céu e mar.

   Poucos foram os que sobreviveram. Ressurgindo da sociedade imaculada, com a memória dos seus entes queridos soterrados nas calmas águas do irónico Pacífico, viram-se isolados em pequenas comunidades num planeta totalmente inóspito. Nele reinava a fome e a desgraça, e pouco levou até que os primeiros actos de canibalismo e violência tomassem lugar. Nascia assim a maldade no seio da humanidade. Ao longo dos anos se espalharam pela superfície que os recebia, e se foram estabelecendo por esse mundo fora. Os sobreviventes ocidentais, ocuparam a hoje chamada América, construindo as sábias civilizações maia, inca e azteca. Os orientais mais se espalharam ainda, por um maior continente. No vale do Nilo, nasceu a civilização egípcia, na Mesopotâmia a babilónica, no Mediterrâneo a grega e a fenícia. Durante séculos se propagaram mais, ocupando toda a Europa, Ásia e África. As suas peles e cabelos foram escurecendo, conforme as zonas, e a maldade e o pecado foram, progressivamente, crescendo dentro do novo homem. Aos poucos, a nova civilização, a que hoje pertencemos, alicerçou-se. De Mu, restava apenas o sonho, a utopia, a vaga memória, mas a chama da humanidade.

   No seu livro de 1925, Mu, Hugo Pratt envolve Corto Maltese numa misteriosa e intrigante descoberta de Mu. Aqui, os sonhos diluem-se com a realidade, num embrenhado histórico ao longo do tempo e espaço. Há várias portas para uma Mu subterrânea escondida sob a imensidão do mar. Grutas improváveis, templos imersos, ilhas desaparecidas. Entre elas, o Labirinto Harmónico. O som do Universo, exterior e interior, que se apodera de nós e nos guia à entrada do perfeito continente.

   “Um labirinto perigoso cheio de música. Se reconheceres uma melodia, ela transporta-te para a época da sua composição. E como as vibrações que estão na sua origem nunca acabam, elas ressuscitam o espaço do tempo da criação.”

   “...nós recebemos a luz de uma estrela morta a anos-luz de nós. Segundo o mesmo princípio, recebemos ondas sonoras distantes de vários dias, vários séculos, as de um homem morto há milhares de anos...”

   A saída encontra-se “escutando uma outra música, melancólica e longínqua... como uma tarde de quinta-feira. Discreta, misteriosa talvez...”

   Mu encontra-se espalhada pelo mundo, nos gestos dos hieróglifos egípcios, enterrada em códices maias, marcada em pergaminhos trancados nos cofres de templos budistas. Nas ilhas dos Mares do Sul ainda hoje permanecem ruínas de templos onde nunca o Homem chegou, colunas e arcos de pedra imersos ou sob atóis de coral. Numa delas, dezenas de cabeças gigantes olham para as estrelas. Para os Deuses, dizem. A improvável pele branca dos nativos denuncia a sua proveniência. De qualquer forma, é o Mar a nossa origem. Para o seu interminável azul olhamos sonhadoramente, como se vislumbrássemos as raízes de Mu que em nós ainda existem. Mu é o Mar, é o início, é a perfeição, o mistério, Deus e a criação. Ouvindo os nossos sonhos, a distante e serena tarde de quinta-feira, talvez um dia atingiremos o fim do labirinto harmónico. Até porque, como nos ensina Pratt, não temos de escolher entre o sonho e a realidade, apenas vivê-los.

Alinhamento:

1. Eleni Karaindrou - Ulysses' Gaze
2. Stephan Micus - The Music of Stones: Part 1
3. Naked City - Verlaine Part Two "La Bleue"
4. CM Von Hausswolff - The Sleeper in the Valley
5. Erik Satie - Gymnopédie No. 3
6. Sigur Rós - Viðrar Vel Til Loftárása




segunda-feira, 18 de julho de 2011

18.07.2011 - Navegar, Navegar


Alinhamento:

1.   I am Calling Out - Master Musicians of Jajouka - Brian Jones Presents the Pipes of Pan at Joulouka (1971)
2.  Atabat (2) - Omar Souleyman - Highway Hassake (2006)
3.  Haqq Ali Ali - Nusrat Fateh Ali Kahn - Sufi Soul: The Echoes of Paradise (1997)
4.  Radio Jaipur - Radio India: The Eternal Dream of Sound (2004)
5.  Our Traditional Music is Most Sensational! - Nat Pwe - Leafs, Drunks, Distant Drums (2004)
6.  Mama Loo & Ata Uma Cinta Arededor Del Viejo Roble -Sérgio del Rio Y Su Conjunto - Latinamericarpet: Exploring The World Of Latin American Psychedelia Vol. 1 (2007)
7.  Nosso Amor - António Carlos Jobim - Orfeu Negro (1959)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

11.07.2011 - O Largar Amarras

É impossível remontar ao momento em que, pela primeira vez, o Homem sentiu o ímpeto de exploração do misterioso e intrigante Grande Azul. Há 40.000 anos, já redes e fios rasgavam a ténue superfície do Mar em busca de peixes e bivalves, abundante sustento sob a imensidão das águas. Da China à Califórnia, espalhavam-se os barcos de pesca que começavam a tecer a história da incansável conquista marítima. Os barcos passavam a navegar mais tempo, e o azul distante aliciava a partir, desafiava tumultuosamente as mentes humanas, incitando-as a ir cada vez mais além, sem olhar a dificuldades. O brilho do horizonte era um chamamento demasiado forte. A insegurança de largar amarras, balançando numa casca de noz, submetida às forças e vontades do imenso oceano, visando voltar novamente a prendê-las em solo desconhecido era o motor que fazia, e efectivamente fez, toda a civilização evoluir incessantemente. A filosofia estóica representava a vida como um Rio encaminhando-se para o Mar, o Fatum. Para a humanidade, possivelmente o Mar será realmente o Destino, e para isso muitos Homens lá ficaram, e se perderam, mas para esta, nunca foi nem será um fim, apenas um meio para chegar a novo Rio.

Nas praias de Belém, em pleno século XV, incontáveis foram as naus que, à descoberta, partiam. Todo o Restelo se enchia para ver os corajosos portugueses que, desafiando as mais altas leis da humanidade, partiam sem garantias de voltar, buscando apenas o inalcançado, o nunca visto, a riqueza da imortalidade, muitas vezes destroçada em angústias e sofrimentos, silenciada pelas vagas, pela fome ou pela loucura. O ouro, especiarias ou escravos que os esperavam do outro lado do horizonte, pouco significavam perante a aventura que se lhes deparava, e era sim o peso do Brasão de Afonso Henriques, da coroa de El Rey, que os impulsionava, que lhes concedia o fulgor necessário para desbravar o infindável.

Na praia, coloridos soldados, ajudantes de carga, Nobres orgulhosos, e toda a multidão lisboeta, lavadeiras, lavradores, pequenos burgueses e juventude pintava um pitoresco e singular retrato, imerso numa malha sentimental intensamente intrincada. Por entre tais figuras, eram as lágrimas que corriam pelas faces das jovens mulheres, as inocentes e angustiadas caras das crianças já orfãs abraçadas, pela última vez, à figura paternal que lhes havia de permanecer na memória. Se para os navegadores, no sofrimento de tudo perder havia a esperança de tudo ganhar, a ânsia e o desafio, o brio das cores azuis e brancas, para os familiares restava apenas um vazio. As lágrimas eram anos de incertezas, de desespero, de sonho e pesadelo. Assombrava àquelas mulheres a educação de um filho sem Pai, a queda do sustento, do pão que parcamente os alimentava, mas era o Amor, a sua perda, que mais feria aqueles corações de mãe, esposa, filho. A cara mal barbeada que agora se preparava para embarcar desapareceria dos jantares de Domingo, deixaria de abraçar uma calorosa mãe, de passar a mão paternalmente pelos cabelos do filho, de beijar fervorosamente a mulher que a amava, acompanhando-a nas noites frias, nas dificuldades, ou nos passeios ao fim da tarde, por entre risos e carinhos.

 A nau largava agora amarras, sob o bramido dos aplausos, e rasgava em espuma branca a superfície onde, talvez até ao fim de seus dias, encontrariam o Amor distante. Defronte, só a imensidão azul do Tejo.

 “Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam.
E já despois que toda se escondeu,
Não vimos mais, enfim, que mar e céu.”
Luiz Vaz de Camões

Alinhamento:

1.      Pt.5 Within the Walls of Neptune - John Surman, Jack DeJohnette
2.      Ao Longe o Mar - Madredeus
3.      O Exercício - Rodrigo Leão
4.      O Mar - Madredeus
5.      Sossego - Rodrigo Leão
6.      O Navio - Madredeus c/ Carlos Paredes
7.      E o Bosque se Fez Barco - Manuel Alegre & Carlos Paredes
8.      Lisboa e o Tejo - Carlos Paredes:
Canto do Amanhecer
Serenata no Tejo
Dança dos Montanheses
Canto de Trabalho
Verdes Anos
Canto de Rua
Canto do Rio
9.      Balada da Distância - Luiz Goes
   10. Partida - Sétima Legião



sábado, 9 de julho de 2011